sexta-feira, 9 de agosto de 2019

A FALTA DE EXPLICAÇÃO É PARTE DA EXPLICAÇÃO


            Esse mês de julho demorou a passar! Talvez você pergunte: como assim? Ele não teve o mesmo tanto de dias que outros meses? Sim, mas não medimos o tempo apenas de modo cronológico pelo tanto de dias e horas que passam. Medimos também subjetivamente, pelos acontecimentos vividos ou presenciados nos intervalos temporais. É a percepção emocional do tempo. Acontecimentos alegres dão a impressão de passarem rápido demais. São visitantes que partem cedo, deixando saudades. Gostaríamos que se demorassem mais um pouco. Por outro lado, acontecimentos tristes, parecem demorar uma eternidade para passar. São visitas enfadonhas e maçantes, que gostaríamos que fossem embora logo. Ficamos com a sensação de que o sofrimento nunca vai acabar. Nesse sentido, esse julho foi comprido! Tivemos várias perdas, algumas trágicas!
Quando nos deparamos com uma tragédia, ficamos confusos, perplexos, sem entender. Buscamos uma explicação, algo que possa ser razoável o suficiente para aliviar, nem que seja por um pouco a nossa intensa angústia. Qual seria a explicação?
            Como explicar que jovens inteligentes, talentosos sejam colhidos como flores viçosas antes de se transformarem em frutos? Como explicar que pessoas dedicadas a Deus, ansiosas por continuar servindo e testemunhando, partem desta vida? 
            A explicação está além de nosso alcance. Qualquer elucidação de nossa parte será mera conjectura. Parafraseando o famoso escritor: há mais coisa entre o céu e a terra do que imagina as nossas explicações. Mas, na ausência da explicação, já temos uma explicação.
            Essa é uma das lições que o relato de Jó nos ensina. Creio que sua história é bem conhecida. Um homem com uma família exemplar, próspero, justo, íntegro, fiel a Deus em todas as áreas da vida, elogiado pelo próprio Deus, enfrentou terríveis e simultâneas tragédias. A perda de tudo de modo repentino, culminando com a morte dos dez filhos soterrados sob a casa em que estavam para um encontro fraterno e festivo. Algum tempo depois, perdeu também a saúde, a compreensão da esposa e a simpatia dos amigos. Ficou sozinho em seu sofrimento! 
            Solidão que foi aguçada pela sensação da ausência de Deus! Esse foi seu maior sofrimento: o silêncio de Deus. A saudade que sentia de Deus lhe consumia (Jó 19.27). Deus não lhe respondia as orações, não lhe dava explicações. Ele clamava, mas parecia que Deus nem se importava. Ele, que havia desfrutado de alegre comunhão, como servo fiel que era, sentia-se abandonado por Aquele que poderia, não só lhe explicar tudo que estava acontecendo, como lhe trazer esperança e consolo!
            Esta é a grande reclamação de Jó no decorrer do livro!
            Mas, Deus estava presente, e bem presente, embora Jó não percebesse. Ele ouviu e avaliava tudo que Jó e os amigos de Jó falaram (Jó 38.1,2; 42.7). Mas por que Deus não respondia e explicava? Será que Ele não amava Jó o suficiente para aliviar o sofrimento dando algumas explicações? Ou será que Deus não tinha explicações para dar? Ou se tinha, não tinha poder para acessar Jó? 
            Deus tinha todas as explicações. Ele poderia na hora em que quisesse interromper o sofrimento de Jó e explicar tudo. O próprio Jó reconheceu que Ele tudo pode(Jó 42.2). Deus amava seu servo Jó intensamente. E porque o amava, não explicava. 
            Deus estava vindicando Seu caráter e o de Jó. Queria deixar claro que Ele conhece bem os seus, e que Jó o servia com sinceridade. Para isso era necessário deixar Jó sofrer sem que soubesse a razão. 
            A falta de explicação fazia parte da explicação! Se a razão ficasse clara, a fé não seria tão testada!  Era necessário que Jó suportasse seu sofrimento sem conhecer os motivos, e demonstrasse que, com ou sem explicações, ele continuaria crendo e servindo ao seu Deus.           
           E foi isso que ele fez. Declarou de modo inconteste que não importaria o que Deus fizesse com ele, ele ainda esperaria em Deus.  
           Mesmo quando falou, Deus não explicou a razão das tragédias na vida de Jó. Apenas argumentou que Jó não sabia de tudo, mas Ele sabia e governava todas as coisas com sabedoria (Jó 38-41). Nós, leitores do livro, sabemos a razão do sofrimento de Jó, mas o próprio Jó não soube, mas creu!
         Jó foi aprovado em um teste em que não precisava de explicações sobre os motivos, mas apenas confiar em Deus. 
Não saber não foi empecilho para crer.  A falta de explicações para as tristezas e perdas da vida testa nossa fé e nos dá a oportunidade de exercitar nossa confiança em Deus. Vamos continuar confiando mesmo sem entender? 
            Jó passou no teste, e nós?

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

NADA É GRANDE DEMAIS PARA DEUS E NINGUÉM É PEQUENO DEMAIS PARA ELE

Aprender os pronomes de tratamento, normalmente ajuda-nos ao nos dirigir às pessoas. Mas há situações nas quais não sabemos se o tratamento deve ser formal ou não. Por exemplo: ficamos constrangidos de chamar uma mulher de “senhora” e ela reclamar que a estamos tratando como uma idosa. Por outro lado, não nos sentimos à vontade para chamá-la de “você”, pois ela poderia interpretar que estivéssemos tomando uma liberdade indevida. 
Podemos enfrentar uma situação semelhante no tratamento com Deus. Por considerá-lo um Ser inigualável, supremo e grandioso, nós O tratamos de um modo respeitoso, mas com medo de nos aproximar com intimidade. Ou podemos achá-lo tão amável e próximo a nós, que nos dirigimos a Ele como se fosse nosso “pareceiro”, sem nenhum respeito, eliminado a distinção que existe entre Ele e nós. 
  Na teologia há dois termos que tentam manter em equilíbrio a distância e proximidade de Deus, a intimidade e o temor devido a Ele. São eles: transcendência e imanência. Tais termos descrevem a ação de Deus em relação à Sua criação.    O primeiro expressa a ideia de que Deus é infinitamente superior a nós, soberano e exaltado, e o segundo que Ele está próximo de todos nós. Ele tanto é o Deus de longe, como o Deus de perto (Jr 23.23). O salmo 113 expressa estas duas verdades.
O salmo é emoldurado pela palavra “Aleluia”, que aparece no início e no fim e significa “Louvai ao SENHOR”, pois na língua na qual o salmo foi originalmente escrito ela é formada pelo verbo “louvar” e uma contração do nome pessoal de Deus (“Jeová” ou Javé”, que nas nossas versões da Bíblia normalmente é grafado com SENHOR, com todas as letras maiúsculas).
O salmista faz um convite ao louvor. Louvar é manifestar apreço, admiração diante das virtudes ou ações de alguém. É elogiar. No caso de Deus é reconhecer Seu Supremo valor e honra. Expressar sua importância contando quem Ele é e o que Ele tem feito. Isso acontece quando mencionamos Suas virtudes e feitos (Sl 78.4). 
O louvor ocorre nas nossas orações, no que testemunhamos aos outros, nos cânticos, nas ações de graças e na música que tocamos e cantamos. Para ser um louvor tem que ser com alegria e de modo público. Pois admiração não expressada não se torna elogio. 
A razão dada pelo salmista para o louvor é que Deus é Transcendente e Imanente.   Deus é excelso, acima de toda criação, soberano sobre tudo, está situado no lugar mais alto, acima dos céus, inigualável. Isso enfatiza Sua santidade, isto é, que Ele está separado de tudo o mais, não precisando de nada nem de ninguém. Que Ele basta a Si mesmo. Está tão acima de tudo que precisa se abaixar para ver o que está no céu!
Mas esse mesmo Deus se interessa e se relaciona com Sua criação. Ele se abaixa até o pó para levantar o desvalido, aquele que é considerado sem valor, rejeitado e sem socorro de ninguém. Ele vai até o monturo, o lixão da vida, para buscar o necessitado. Ele é o Grande Deus, mas também é o Deus que se importa e acode o necessitado. É o Deus que por ser grande pode mudar as situações, trazendo honra aos desonrados e alegria aos tristes.  Mesmo sendo um governador que poderia ser intocável, Ele bondosamente se inclina, verifica e age, invertendo situações e abençoando a terra. 
A transcendência e a imanência, junto com o poder e a graça de Deus são os pilares da oração. Apenas um Deus transcendente e poderoso merece a nossa oração, sabe o que fazer com nossas petições e pode receber nossa gratidão e nosso louvor. Somente um Deus imanente e gracioso vai se interessar por nossos problemas. Como um pai, que se inclina para ouvir os problemas que angustiam seu pequenino filho, mesmo que, para esse pai, aqueles problemas sejam bobagens fáceis de serem resolvidas. Mas ele sabe demonstrar interesse real e amoroso. 
O Salmo nos demonstra que a teologia pode ajudar na oração e fortalecer nossa confiança em Deus. Quanto mais conhecermos nosso Deus, mais iremos confiar Nele. Nada é tão grande como nosso Deus, e ninguém é pequeno demais para Ele não se importar. Ele não precisa de nós, mas nem por isso é indiferente a nós. 

Podemos clamar a Ele com confiança. 

quinta-feira, 13 de junho de 2019

LECTIO DIVINA


Lectio Divina é uma expressão em latim que pronuncia-se "lekssio divina" e significa "leitura divina". 
Trata-se de um método milenar de ler, meditar e orar as Escrituras. Em outras palavras, é um método antigo de fazer o devocional particular e diário.  Devemos lembrar que um método deve servir como apoio na busca de um objetivo. Se tal objetivo pode ser alcançado de outro modo, o método torna-se desnecessário (José Moreno, em Lectio Divina, pg. 14)
O alvo deste método é desenvolver em nós uma mentalidade bíblica, um modo de pensar que se assemelhe ao de Deus, transformando-nos pela renovação da nossa mente, para assim vivenciarmos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.2). 
O pressuposto do método é que a Bíblia é a Palavra de Deus, que Ele nos fala hoje através delaConforme lemos:  Tudo que outrora foi escrito para nosso ensino foi escrito, a fim de que pela perseverança e consolação das Escrituras, tenhamos esperança (Rm 15.4)Estas coisas lhe sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa... (1Co 10.11). Lemos a Bíblia para ouvir Deus falando conosco através dela, e para que, assim nossa vida possa ser direcionada por Ele. 
Quero apresentar alguns passos deste método.
            1º PREPARAÇÃO.  Reflexão exige um local e atitude apropriados.  Escolha um local e horários quietos e calmos, onde possa manter a concentração.  A repetição de local e horários ajuda a desenvolver uma associação mental que leva a uma mentalidade propícia para a meditação.  Assente-se quietamente, numa posição de relaxamento, mas também de alerta. Acalme seus pensamentos, deixando toda preocupação, perturbação e distrações de lado, como se estivesse em outro local. 
Se encontrar dificuldade nisso, controle sua respiração. Com os olhos fechados inspire e expire lentamente. Repita esse exercício até que sua respiração se acalme e as batidas do seu coração se normalizem. 
Ore pedindo que Deus guie seu tempo de leitura e reflexão das Escrituras, mostrando-lhe a verdade da Sua Palavra. Se tiver dificuldade nisso, repita conscientemente uma oração conhecida, como Pai nosso, ou uma frase de clamor como "Deus, tem misericórdia de mim" ou ainda, "Senhor me ajude a me acalmar", ou mesmo entoe um cântico que você aprecia.  Esteja alerta para ouvir Deus falando na leitura da Palavra. 
            2º LEITURALeia a passagem concentradamente, repetidamente. Ao menos uma vez leia em voz alta. Impeça sua mente de vaguear e voar para longe do texto.  Se puder, tenha outras versões por perto e leia a passagem nelas.  Se alguma palavra, frase ou pensamento do texto lhe chamaram a atenção, anote. Pergunte ao texto: o que você está querendo ensinar?
            3º MEDITAÇÃO. Medite. Reflita na passagem. Especialmente nos aspectos que mais lhe tocaram. Permita que, além dos pensamentos as afeições, emoções, vontade e até a imaginação permeie seu entendimento da passagem. Imagine e crie imagens mentais dos eventos narrados na passagem. Meditar é ruminar, repensar o que foi lido. Isso não pode ser feito de forma apressada. Entre na passagem, perguntando o que ela diz a você. Se for uma narrativa procure saber com quais personagens você se identifica.
            4º ORAÇÃO.  Ore falando com Deus sobre a passagem lida. Conte para Deus o que chamou sua atenção na passagem. O que lhe tocou. E peça para Ele mudar sua vida de acordo com aquela passagem. Pode colocar a passagem na primeira pessoa e em forma de oração. Por exemplo: se você ler Mt 4.4 onde Jesus diz que nem só de pão vive o homem, você poderá orar assim: Senhor, está escrito que não é o pão que me dá vida, mas a Tua Palavra. Ajude-me a me alimentar e depender desta Palavra. 
            5º CONTEMPLAÇÃO. Contemple a presença de Deus. Desfrute da presença de Deus, como alguém que está em contato com uma Pessoa muito preciosa. Em silêncio e quietude alegre-se com Deus através de sua palavra. Louve e agradeça por este tempo. Se lembrar de algum cântico, entoe-o. 
            6º AÇÃO. Depois de dar os passos acima, anote algumas coisas que você precisa fazer à luz da passagem lida. Então, calmamente, saia do lugar, alegrando-se com o fato de que a presença de Deus continuará com você.    
Um lembrete: se durante o processo, os ruídos internos aparecerem (preocupações, problemas para resolver), pare e conte o problema para Deus. Não resista a este barulho, mas ouça-o e conte-o a Deus, e depois continue no processo.  Algumas vezes as vozes internas aproveitam estes silêncios para gritarem conosco. Deus pode usar isso para mostrar direções e correções de que nossas vidas precisem. 
No princípio, pode ser difícil aplicar este método mas, com a prática, você vai se acostumando com ele. Meu desejo é que seu amor por Deus e Sua Palavra, e seu aproveitamento da mesma aumentem, e que você se junte aos muitos cristãos que no decorrer da história se deleitaram com Deus, através deste método.  
    


sábado, 20 de abril de 2019

A CRUZ MATOU O MEDO DESTES HOMENS E OS TIROU DAS TREVAS PARA LUZ

            O nome do primeiro era José. O mesmo nome do patriarca que salvou os seus antepassados da fome, cerca de mil e oitocentos anos antes, quando seu povo foi para o Egito. Por haver outros “Josés” e porque ele era da cidade de Arimatéia, que distava uns 32km de Jerusalém, tornou-se conhecido como José de Arimatéia. Sua participação na vida de Jesus é contada nos quatro evangelhos (Mt 25.57-60; Mc 15.43-46; Lc 23.50-53; Jo 19.38-42)
            José era um homem rico que, além de posses, também tinha muito respeito e prestígio, sendo, por isso, muito estimado e honrado pelo seu povo. Pertencia ao Sinédrio, um conselho formado pelos líderes judeus com autoridade para administrar os assuntos civis e religiosos na Palestina. Este conselho estava subordinado apenas ao procurador romano. Mas, diferente de muitos outros membros do Sinédrio, José era um homem bom e justo. Alguém que prezava pelos valores de Deus e se esmerava em seguir a verdade, a bondade e a justiça. 
            Sua vida era dirigida por uma esperança: a vinda do Reino de Deus. Ele aguardava ansiosamente a chegada do Messias libertador, o descendente de Davi que assumiria o trono em Jerusalém, salvando o povo de Israel do domínio estrangeiro. Seria a chegada do Dia do Senhor, trazendo juízo sobre os opressores do povo e salvação para os fiéis. A morada santa de Deus, o templo do Senhor, seria purificado das profanações e corrupções, e o povo de Deus poderia adorá-lo em santidade e justiça para todo o sempre. A consolação de Israel, a redenção de Jerusalém era seu sonho e mais forte desejo. Esta esperança era compartilhada com obsessão po muitos judeus(Lc 1.68-75; 2.25,38). 
Além disso, José de Arimatéia era discípulo de Jesus, um seguidor, um aprendiz. Por isso não concordou com a decisão tomada pelo Conselho dos judeus. Provavelmente não estava presente, quando Jesus foi julgado pelo Sinédrio, pois Marcos nos diz que todos os presentes julgaram Jesus digno de morte. Soube depois, já que o julgamento foi realizado bem cedo naquele dia (Mc 14.64; Lc 22.66). 
Até então, José seguia Jesus ocultamente, não de forma declarada. Tal como outros, que depois de presenciar os milagres e ensinos de Jesus acreditaram nele, mas amavam mais a glória e respeito dos homens e não manifestavam sua fé publicamente (Jo 12.42,43). Talvez, José amasse mais seu lugar no Sinédrio e sabia que se proclamasse que Jesus era o Messias há tanto esperado, seria expulso, perderia sua posição de respeito e honra. Ele se contentava em seguir, mas não manifestava isso publicamente. Considerava que guardando em segredo sua fé em Jesus, manteria também sua posição de prestígio diante da sociedade!
Mas, a cruz o tirou do anonimato. O que aconteceu com Jesus constrangeu seu coração. Seu discipulado não mais seria um segredo. Tinha que manifestar de que lado estava, e não era do lado da liderança judaica. Não lhe importava mais perder sua posição e o prestígio. Honrar Jesus era uma valor maior agora, mesmo que já fosse um tanto tarde para isso.
 Sabia que, sendo membro do Sinédrio, poderia fazer um pedido oficial ao governador Pilatos para ter o corpo de Jesus e dar-lhe um sepultamento adequado, algo que que os parentes de Jesus não conseguiriam fazer. Precisava agir rápido, pois o sábado se aproximava, e nele não poderia fazer qualquer obra. Se o corpo não fosse sepultado logo, ficaria ao relento, iria se decompor mais rápido, e poderia até ter partes devoradas pelos abutres e feras.
José agiu com coragem, desafiando os perigos e oposição. Foi ousado. A ação que os seus pares tomaram contra Jesus não o intimidou. Algo precisava ser feito para impedir que o corpo de Jesus não recebesse um digno sepultamento digno e fosse lançado na vala comum. Teria também que arriscar um encontro com Pilatos, um governador que era conhecido como alguém inflexível e implacavelmente severo, e que já se encontrava indisposto para com a liderança judaica (Lc 13.1; Jo 19.19-22). 
A ação dele é mais admirável porque não esperava nenhum benefício, pois Jesus estava morto. Foi um ato de misericórdia, desprovido de qualquer interesse de receber retribuição. Era um risco desnecessário para ele, e que não lhe traria nenhuma recompensa. 
Não poderia fazer tudo sozinho. Providencialmente surgiu  Nicodemos, outro que seguia Jesus nas sombras da noite, e que já havia feito uma defesa de Jesus diante do Sinédrio (3.1-3; 7.50-52). Este cuidou da compra de cerca de 34 quilos de especiarias, uma mistura composta de mirra, uma resina aromática trazida do Egito, que era transformada em pó; alóes, que era um pó feito da madeira do sândalo aromático. Não se destinava a embalsamar o corpo. Tinha a função de suprimir o odor da putrefação. Este composto formava um perfume que geralmente era usado em ocasiões mais alegres (Sl 45.8; Ct 4.14).
Com a permissão de Pilatos, eles foram até o local, levando seus empregados. Era necessário tirar os cravos que pregavam os pés de Jesus no madeiro, depois baixar a parte horizontal da cruz, soltando as cordas que o amarravam. Então, depois do corpo depositado no chão, retirar os pregos dos pulsos, lavar o corpo para remover o sangue que o cobria, carregá-lo e colocar num local onde pudesse ser envolvido com os panos de linho que compraram. A quantidade e a qualidade do material usado demonstrava que eles queriam dar a Jesus um sepultamento digno de um rei. 
Estes panos já estavam cobertos pelas especiarias. Nas proximidades, havia um túmulo novo, ainda não usado, que tempo antes, José de Arimatéia havia mandado abrir numa rocha. No túmulo havia uma pedra, em forma de leito. Ali seriam colocada uma camada de especiarias, depois o corpo de Jesus já enfaixado, e o restante das especiarias acomodados em volta de Jesus. Uma pedra foi rolada para fechar a entrada. Proteção e cuidado necessários para proteger o corpo de Jesus. 
O sepultamento em grutas era para os ricos, que poderiam se dar ao luxo de comprar um terreno para isso, e ali mandar escavar na rocha uma espécie de quarto com nichos, onde os corpos seriam colocados. Os pobres eram sepultados em covas abertas no chão. Após um ano do corpo na gruta, os parentes poderiam entrar, pegar os ossos do cadáver e colocar numa caixa com o nome da pessoa, que era o ossuário, onde o morto aguardaria a ressurreição. Mal sabiam eles, que isso não ocorreria com o corpo de Jesus! Surpresa e alegria maior teriam ao ver Jesus ressuscitado! Esta seria sua recompensa inesperada e impagável! 
A cruz encheu estes homens de coragem, matou o medo que até então os dominava, libertou-os das amarras das glórias mundanas, e permitiu que manifestassem sua fé. Séculos depois Isaac Watts (1674-1748) expressaria esse sentimento assim:
Olhando o lenho crucial, em que morreu da glória o Rei
Às honras, vida mundanal, desprezo eterno votarei. 
Eles ainda não compreendiam tudo, mas a cruz lhes fez compreender que era necessário tornar pública sua fé em Jesus. A cruz os libertou do medo e os trouxe das trevas para a luz!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

UM ANO NOVO VEM AÍ! PERSEVEREMOS EM FAZER O BEM SEM DESANIMAR

 “Não se cansem de fazer o bem”. Esta exortação aparece duas vezes no Novo Testamento. "Portanto, não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo ceifaremos, se não tivermos desfalecidos." (Gálatas 6.9) “E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem.” (2Tessalonicenses 3.13).
O verbo traduzido como “cansar” significa falhar em manter a resistência.  Isto é, desistir, desanimar, perder o ânimo e a coragem para prosseguir com uma tarefa ou alvo. Não é apenas se omitir diante de uma tarefa, mas relaxar os esforços, perder a coragem no meio das dificuldades, interromper a perseverança e persistência, antes de alcançar o objetivo, considerando que não vale a pena sucumbir à exaustão. A exortação é para superar a letargia, a preguiça, o tédio e a desesperança. O chamado é para não desanimar diante da fadiga. 
Lucas usou a palavra desanimar quando explicou a razão de Jesus contar a parábola do juiz iníquo e da viúva. A lição é que, por mais desesperadoras que sejam as circunstâncias, os cristãos devem permanecer orando obstinada e intensamente, sem nunca desistir (Lucas 18.1). Orar é empreender uma guerra, é lutar contra as forças espirituais do mal. Tais forças são formadas por: nossa própria natureza pecaminosa, que não gosta de orar; pelo mundo que nos rodeia, o qual nos induz a desconfiar da realidade invisível e a depender apenas do que nós podemos ver e tocar; e por Satanás, que tenta nos fazer descrer na eficácia da oração e a confiar apenas em nossos próprios recursos. Para perseverar na oração é preciso que a resistência nunca amoleça e a coragem nunca afrouxe. Nenhum obstáculo serve como desculpa para relaxar os esforços na oração.
Na carta aos Gálatas, Paulo desafia seus leitores a fazer o bem às pessoas, ajudar aqueles que precisam. Ajudar pessoas pode ser desanimador. Nem sempre elas agradecem, como esperamos, nem reconhecem o nosso esforço ou aproveitam a ajuda dada para crescerem e não dependerem mais de nós. Algumas vezes, até ficam viciadas em ser ajudadas. Além disso, ajudar a outros toma nosso tempo, recursos e energias. Isso pode deixar-nos cansados e desanimados. A razão para a exortação de Paulo é que, no tempo certo, a recompensa virá. O lavrador que colhe os frutos é o que persiste na semeadura e no cuidar da roça até o tempo adequado. De igual modo, os que colhem o bem são os que persistem em fazer o bem. Não os que desanimam e desistem. As palavras são claras: colheremos, se não desfalecermos.
Outra área da vida na qual podemos desanimar é no serviço prestado a Deus: na evangelização, no ensino, na proclamação da Palavra, no culto e no cuidado com a Igreja. Em 2 Coríntios 4.1,16, Paulo nos adverte contra o cansaço que nos leva ao desânimo no serviço cristão. As bases para a perseverança são o conhecimento de que a oportunidade e privilégio para realizar estes serviços nos foram garantidos pela misericórdia de Deus e a certeza de que as canseiras que este ministério acarreta são leves e momentâneas, quando comparadas com a glória que nos espera. O modo de perseverar inclui rejeitar tudo que é vergonhoso e fixar os olhos no invisível e eterno, e não no que é visível e temporário. 
As tribulações que atravessamos, ou mesmo as que presenciamos em outros, também podem nos levar à desistência. Mas em Efésios 3.13, novamente Paulo adverte para que isso não ocorra, pois as tribulações devem ser motivo de glória e não de vergonha e desânimo. Sofrer por Cristo é uma graça e uma glória. 
Por último, cuidemos para não desanimar na obediência aos mandamentos de Deus, como o povo de Deus na época do profeta Malaquias, que se cansou de obedecer a Deus, por calcular que não valia a pena, que não traria nenhuma vantagem e não lhes daria nenhum lucro (Malaquias 3.13-18). 
Eles chegaram a pensar que havia mais vantagem em agir com soberba, isto é, fazer da própria vida o que bem entendessem, sem se preocuparem com as ordens de Deus. “Os que agem assim é que se dão bem na vida", diziam eles. Estavam olhando apenas para as aparências, eram guiados por seus olhos, pelo visível. Semelhantes a Ló, quando escolheu as proximidades de Sodoma e Gomorra. Apenas as campinas férteis deste mundo lhe atraíam o coração (Gênesis 13.10,11). 
O texto de Malaquias, porém, deixa claro que havia outro grupo, os que temiam a Deus, cujas pessoas se incentivavam mutuamente a continuar servindo ao Senhor com fidelidade.  Apesar das aparências, Deus sabia de tudo e contava tudo. Ele registrava em Seu livro, como um diário de memórias, os que O honravam e que levavam em conta a Sua Pessoa. 
Esta é a realidade: Deus considera os que O consideram. Ele não esquece. Um dia vai recompensá-los. Um dia Ele vai deixar bem claro e patente a diferença entre o justo e o maldoso, entre servir a Deus e não servir. "Então vereis outra vez a diferença entre o justo e o maldoso, entre os que servem a Deus e os que não servem" (Ml 3.18). 
Não se canse de obedecer a Deus, pois isso tem um valor eterno.
E porque é assim, não nos cansemos de fazer o bem durante todo o novo ano que se inicia.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

NATAL – UMA ANTIGA PROMESSA



            
Não sabemos se Jesus nasceu mesmo no dia 25 de dezembro. É provável que não.  Mas foi a data escolhida pela cristandade para comemorarmos o seu nascimento. 
De fato, este nascimento foi uma encarnação. A pessoa do Filho de Deus já existia, eternamente, antes de aqui nascer (João 1.1). A segunda pessoa da Trindade se fez humana, sem deixar de ser divina. Isso ocorreu para que se cumprissem antigas promessas de Deus.  

            O pecado humano e a graça divina foram os fatores que tornaram necessário este nascimento. Ao desobedecer a Deus, o homem trouxe a ruína para o belo e perfeito mundo criado. Dor, tristeza, doença, cansaço, fadiga, desesperança, desespero e morte misturaram-se com a beleza e os prazeres da vida. Nosso mundo é como um belo templo arruinado. Há resquícios de beleza e vida convivendo com feiura e morte. 
Algumas vezes, a vida é tão boa e bela que esquecemos de Deus e de nosso pecado e desejamos permanecer aqui para sempre. E, às vezes, a vida é tão terrível que esquecemos de Deus e nos desesperamos dela, desejando sair daqui o mais rápido possível para um lugar melhor. O cristianismo apresenta a sólida esperança de que um dia esses dois desejos se cumprirão. O templo será restaurado! Cremos nisso porque assim Deus, graciosamente, prometeu. 
            Essa combinação de tristeza e esperança já aparece na primeira promessa feita por Deus à raça humana, narrada em Gênesis 3.15. Depois de confrontar o homem com sua desobediência, Deus, que é o Supremo Juiz e Governante do universo, apresenta a sentença pelo pecado cometido. 
            A primeira sentença é para a serpente e sua descendência. Conforme a revelação posterior nos indica, esta serpente é Satanás.  Sua descendência é formada por todos aqueles que não se sujeitam ao domínio de Deus, sendo resistentes à Sua vontade. Jesus os  chamou de “raça de víboras” (Mt 12.34; Ef 2.1-3; 1 Jo 3.10; Ap 20.2). 
            A mulher, como a mãe de todos os viventes, representa a humanidade. Sua descendência são todos que resistem à serpente, sujeitando-se às ordens de Deus. Esta semente seria encabeçada por um único descendente que a representaria, o novo Adão, o cabeça da nova humanidade (Rm 5.14; 1 Co 15.22,45).
              Deus anuncia uma hostilidade entre os dois grupos de descendentes, os quais estariam em constante inimizade e conflito. Esta é a história da humanidade! Uma constante batalha entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira, entre os que se submetem a Deus e os que lhe resistem. 
            Uma guerra que deixaria feridos em ambos os lados, mas que teria um vencedor. Usando a linguagem da época em que o relato foi primeiramente escrito, Deus anuncia que o descendente da mulher pisaria sobre a cabeça da serpente. Nas guerras daquela época, o vencedor trazia o vencido aos seus pés e pisava em sua cabeça. Com este gesto, indicava que dominava sobre ele (Js 10.24). Com estas palavras Deus garante que o descendente da mulher derrotaria a serpente. Para Adão, ouvir esta sentença para a serpente, deve ter sido motivo de esperança. Tanta foi a esperança que ele deu um novo nome para sua esposa, chamando-a de “Eva”, mãe de todos os viventes.Haveria vida e esperança no meio da morte (Gn 3.20). 
            Mas o descendente também seria ferido. Sofreria a penalidade da culpa humana. Em sua vinda ao mundo, Jesus se solidarizou com a mistura de tristeza e alegria da humanidade. Ele sofreu por tomar sobre si o castigo pelo nosso pecado, mas foi esse sofrimento que nos trouxe a paz e a cura. Foi através de suas dores que Jesus experimentou a satisfação de fazer a vontade de Deus prosperar (Is 53.5,10-12). Foi através de sua morte que, finalmente, a morte foi derrotada (Hb 2.14,15).
            Já nesta promessa temos a profecia sobre os sofrimentos de Cristo e sobre as glórias que lhes seguiriam (1Pd 1.11).
            A promessa de um descendente vitorioso, que derrotaria as maldições resultantes do pecado, foi repetida nas Escrituras (Gn 12.1-3; Is 7.14; 9.6,7; 11.1-10; Mq 5.2) e começou a se cumprir milhares de anos depois, no nascimento de Jesus (Mt 1.21-23; Gl 4.4,5).
Este mundo será restaurado. Haverá novos céus e nova terra. Os portões do Paraíso, fechados por causa do pecado dos nossos primeiros pais, será reaberto por causa do nascimento, morte e ressurreição de Jesus. No Natal esta antiga promessa começou a se tornar realidade. 

O VALOR DE LER LIVROS

                 A tecnologia acelerou significativamente nossas vidas, criando uma demanda por gratificação instantânea.  Essa mudança, ali...