quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A CURA PARA A ESCLEROCARDIA

Na língua grega, na qual foi escrito originalmente o Novo Testamento, há o termo “esclerocardia”, que significa dureza de coração. Várias vezes somos exortados a não endurecer o nosso coração: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração, como foi na provocação (Salmo 95.8; Hb 3.8,15; 4.7). Mas como podemos fazer isso?
O tratamento da “esclerocardia” começa com o aprendizado das Escrituras.  Quando foi questionado pelo partido religioso dos fariseus sobre a licitude do divórcio por qualquer motivo, Jesus deixou claro que a solução para os problemas da família está nas Escrituras (Mt 19.3-9). A pergunta deles tinha como objetivo testar Jesus. Pretendiam que Jesus cometesse um erro ou falasse algo que o desmoralizasse diante do povo. Talvez esperassem que Jesus entrasse em contradição com o que Moisés havia dito, ou que dissesse algo que contrariasse o caso de Herodes e Herodias, como João Batista havia feito e por isso fora condenado, pois se estava no território governado por Herodes (Mt 14.3-12). 
             A resposta de Jesus é “Não tendes lido” e cita Gênesis 1.27 e 2.24. Para Jesus, a Palavra escrita de Deus era a autoridade sobre os assuntos de casamento e família. Apesar de ter sido escrita há mais de 1400 anos, ela ainda permanecia válida. Não importava se os costumes haviam mudado e se a mentalidade das pessoas era outra. O que Deus havia feito e dito, e que fora registrado nas Escrituras, permanecia com autoridade. 
            Em Gênesis 1.26,27 lemos o registro do que Deus fez. A Bíblia é nossa fonte de informação sobre o que Deus fez no princípio. Ele é o Criador de tudo, inclusive da família e do casamento. Ele tem autoridade para dizer como o casamento e a família devem funcionar. O que tem valor é o que Ele fez, não o que os homens ou a sociedade pensam. Em Gênesis 2.24 temos as palavras que explicam a razão do casamento. Foram escritas por Moisés, mas Jesus afirmou que fora Deus quem dissera, mostrando que Deus estava dirigindo o pensamento de Moisés, quando este escrevia aquele relato bíblico. Portanto, o que está na Bíblia é Palavra de Deus. E as ordens e explicações de Deus para a família se fundamentam nas ações de Deus em prol da família. 
            Quando a Bíblia fala, nossa opinião cala. Quanto ao que a Bíblia afirmou, nós não temos o direito de achar mais nada. Resta-nos apenas crer e obedecer. O que está escrito na Palavra de Deus encerra a questão. Portanto, para evitar o endurecimento do nosso coração, temos que conhecer a Bíblia. Ler, estudar e ouvir com atenção. Buscar entendê-la e obedecê-la. Ela é nossa autoridade para resolver os problemas da família. 
            Mas devemos interpretar a Bíblia corretamente. Os oponentes de Jesus também usaram o que Moisés havia escrito para contradizer a resposta dada por Jesus. Mas a interpretação deles estava equivocada. Moisés não havia ordenado o divórcio, apenas permitido, e isso por causa da dureza de coração.  Nosso coração é enganoso e pode nos levar a uma interpretação errada das Escrituras. Corremos o risco de usar a Bíblia para assegurar nossos desejos e desculpar nossos erros. 
            Alguns usam os seguintes argumentos: “Sou infeliz nesse casamento, e Deus não quer a minha infelicidade, portanto vou me separar”; “O amor acabou, e Deus é um Deus de amor, portanto cada um deve buscar alguém a quem ama e por ele seja amado para conviver”; “Deus não quer que nossos filhos cresçam vendo a gente brigar”. E por aí vão as conclusões erradas sobre ao ensino bíblico referente ao casamento e à família. Estas pessoas estão usando algumas ideias certas para tirar conclusões erradas. Deus não quer a infelicidade de ninguém, mas a dissolução de um casamento nunca foi e nem será o caminho para a felicidade. Deus não quer um casamento sem amor, mas a solução ordenada por Ele não é a separação e sim que os cônjuges aprendam a se amar. Deus não quer que os filhos cresçam vendo as brigas dos pais, mas sim que aprendam com os pais a resolverem os conflitos e suas diferenças, recorrendo à Palavra de Deus e à oração. 
            Jesus reafirma que o propósito de Deus para o casamento permanece aquele do princípio. As ideias modernas, a evolução dos costumes e as mudanças na sociedade não alteram o que Deus fez e afirmou. Muitas coisas mudam na vida, algumas mudanças são boas, mas há coisas que nunca devem mudar, e o casamento é uma delas. Mesmo com a presença do pecado e da dureza do coração humano, o que Deus fez e disse continua valendo.  
Ele uniu homem e mulher, Ele os ajuntou, colocou sob o mesmo jugo. Jugo era uma peça de madeira ou de ferro que atrelava uma parelha de bois à carroça ou ao arado, para que pudessem trabalhar juntos, sem se afastarem um do outro. Em nossa língua também é chamado de canga. Podemos ilustrar as palavras de Jesus dizendo que, no casamento, Deus encangou um homem e uma mulher, para que sob as rédeas divinas, juntos puxem a carroça da família e o arado que faz a vida frutificar. Sem que um abandone o outro.  Isso é uma tarefa difícil, mas, quando obedientes a Deus, Ele nos dá a graça para continuarmos. Quando um dos dois, ou até os dois, endurecem o coração, ficam revoltados e querem se libertar desse jugo imposto por Deus, ocorre a separação.  
O aprendizado das Escrituras deve levar à obediência aos mandamentos de Deus. Começando com o arrependimento, isto é, o retorno para Deus e para sua Palavra, deixando de seguir os desejos do coração para confiar e seguir as ordens de Deus confiando e aceitando os seus ensinos (Nm 15.39; 2 Cr 30.8). Reconhecendo humildemente a disciplina de Deus (Lv 26.41).   


Além disso, o tratamento da “esclerocardia” requer oração constante, pedindo que Deus transforme o nosso coração (Lm 5.21) 
Nosso coração é enganoso e desesperadamente corrupto. Somos incapazes de conhecê-lo (Jr 17.9). Ele facilmente nos engana, invertendo os valores. Guiados por ele, podemos chamar o errado de certo e o certo de errado. Ficamos iludidos, acreditando que nossos desejos são corretos, quando eles, na verdade, podem estar envenenados e destruir nossa família.  Temos que pedir a Deus que sonde os nossos corações, mostre o que está errado e nos corrija. Como o salmista fez: Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno(Sl 139.23,24) 
Como preferimos os bens desta vida, precisamos orar:  Inclina-me o coração ao teus testemunhos não à cobiça(Sl 119.36) 
Nossa tendência é ter um coração disperso, atento às coisas deste mundo, e desviado de Deus. Tememos e amamos os valores terrenos. Ficamos encantados com as belezas passageiras. Precisamos de um coração concentrado em temer a Deus. Por isso o salmista orou: Ensina-me, SENHOR, o teu caminho, e andarei na tua verdade; dispõe-me o coração para só temer o teu nome (Sl 86.11)
A oração tanto deve ser feita em tempos de bonança, quando tudo está bem, como nos períodos de disciplina e sofrimento. Salomão suplicou a Deus pelo povo, quando tudo estava bem, para que Deus não os desamparasse, mas mantivesse o coração do povo inclinado para seguir os caminhos de Deus (1 Rs 8.57,58). E Deus prometeu ao seu povo que, quando os tempos difíceis de disciplina chegassem, eles deveriam buscar a Deus de todo coração (Dt 4.29). 
Pratique a oração. Ore por você, por seu cônjuge e por seus filhos. Ore a sós, diária e constantemente, e sempre que possível, ore com seu cônjuge e com seus filhos. 
Um terceiro remédio para a “esclerocardia” é a comunhão numa igreja local. A ordem divina é que pratiquemos a exortação mútua e diária para que ninguém seja endurecido pelo engano do pecado. Exortai-vos mutuamente durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado (Hb 3.13)
É no contexto da participação ativa numa igreja que podemos realizar esta exortação. 
Há casais que não se importam em manter um compromisso com uma igreja. Tratam a frequência e participação numa igreja local como um item opcional na vida. Esquecem que é no compromisso de participação de uma igreja que aprendemos e crescemos. Há tanta coisa para fazer na vida: trabalho, estudos, diversão, que a igreja, muitas vezes, passa a ser a opção apenas quando sobra tempo. São como a semente que caiu entre espinhos, na parábola do semeador: A que caiu entre espinhos são os que ouviram e, no decorrer dos dias, foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida; os seus frutos não chegam a amadurecer (Lc 8.14). Como não são constantemente exortados, a palavra é sufocada. Os cuidados rotineiros, a busca por crescimento financeiro e por lazer impedem que a Palavra cresça e frutifique. Quando os problemas aparecem, buscam a igreja para pedir socorro. Neste caso, muitas vezes o endurecimento chegou ao ponto que só a amputação resolve. 
Alguns pais não se envolvem nas atividades da igreja e nem se esforçam para que seus filhos se envolvam. Esquecem que o aprendizado acontece principalmente de forma relacional. Nossos filhos irão fazer amigos, influenciar e ser influenciados, crescer, namorar, e formar famílias, quer queiramos quer não. Mas nós podemos escolher os locais onde eles construirão esses relacionamentos. 
Estes são os meios de graça que Deus deixou para impedir que nosso coração endureça: aprendizado da Palavra, oração constante e participação e comunhão numa igreja local. Estes são os remédios que curam nossa “esclerocardia”. 

Se em seu lar a situação é boa, vigie e se mantenha firmado em Deus. Se as circunstâncias estão complicadas e difíceis, não perca a confiança. Não desobedeça às ordens de Deus. Clame, obedeça e espere. Busque o fortalecimento na companhia de outros irmãos.  Não permita que sua “esclerocardia” destrua sua família e sua vida.