segunda-feira, 16 de abril de 2012

ESTÁ CONSUMADO


        Terminar um trabalho é algo apreciável. A sensação produzida é agradável, e pode ser de alívio por se livrar de uma responsabilidade, ou de vibração exuberante por causa do resultado alcançado. Aqueles que já tiveram que escrever uma monografia ou um artigo podem testemunhar isso.  Mas raramente concluímos um trabalho com a sensação de realização plena, pois logo percebemos que ele poderia ter ficado melhor, que há erros a serem corrigidos, ou mesmo partes que precisam ser melhoradas.
  Já o Senhor Jesus concluiu Sua obra é bradou “Está terminado” com plena consciência que nada melhor poderia ser feito, que a obra fora perfeitamente cumprida.
      A expressão “Está consumado”, relatada em João 19.28-30, é considerada a sexta palavra da cruz. Jesus já estava na cruz por aproximadamente seis horas.  Após pedir que o Pai perdoasse os que O crucificavam, prometer que o malfeitor arrependido estaria no paraíso, pedir que João cuidasse de Sua mãe, clamar diante do abandono do Pai, e manifestar Sua sede, Ele proclama que a obra fora consumada!
        Na língua original apenas uma palavra é usada para expressar a ideia bradada por Jesus.  É um verbo conjugado numa forma que expressa uma ação completa, e cujos resultados continuam. Conforme estudiosos, o uso desta forma é uma escolha deliberada do autor para indicar o estado presente de uma ação passada. Seria como se Jesus estivesse dizendo: a obra se cumpriu e os resultados perduram. 
           A raiz deste verbo é um substantivo que indica o fim, a conclusão, o término, ou o alvo de alguma coisa.  O verbo pode indicar que algo foi terminado, concluído, completado, cumprido, e que o objetivo foi alcançado. O Novo Testamento usa este verbo para indicar: 
(1) o final de algo, como o dos sermões de Jesus em Mateus 7.28; 11.1; 13.53; 19.1; 26.1; 
(2) um tempo que se completa, como os mil anos de Apocalipse 20.3,5,7; 
(3) o aperfeiçoamento de uma virtude, como o poder em 2º Coríntios 12.9; 
(4) a obediência a um mandamento, Tiago 2.8; 
(5) o pagamento de impostos Romanos 13.6; Mt 17.24;
(6) o cumprimento ou realização de uma profecia Apocalipse 10.7 e 17.17. 
         Alguns destes usos podem ser aplicados a João 19.28-30, mas creio que o contexto indica que o sentido principal aqui é o de cumprimento das Escrituras. 
João enfatiza isso usando duas palavras, a que foi traduzida como “está consumado” (já tratada acima), e outra semelhante que significa “Encher, completar, cumprir”. Esta já havia sido usada com o sentido de cumprir uma profecia na tradução grega do Antigo Testamento (1 Reis 2.27; 8.15,24; 2 Crônicas 36.21,22).
Ao relatar a semana da morte de Jesus, o apóstolo João mostra como Jesus estava cumprindo as profecias.
(1) Em 12.37-43, ele afirma que a rejeição de Jesus já havia sido profetizada, e cita Isaías 53.1 e 6.10. 
(2) Em 13.18, o próprio Jesus afirma que a traição já estava profetizada, e cita o Salmo 41.9. 
(3) Também em 15.25, Jesus diz que o ódio a Ele já estava profetizado, citando os Salmos 35.19 e 69.4. 
(4) Em 17.12, novamente falando a respeito de Judas Iscariotes, Jesus menciona que as Escrituras estavam se cumprindo. Quando pensamos em suas palavras à luz de Atos 1.20, podemos perceber o Salmo 109.8.
(5) João volta a dar sua própria interpretação em 18.9, e agora para mostrar que eram as próprias palavras ditas por Jesus em 17.12, que estavam se cumprindo. 
(6) Outra vez, agora em 18.32, João mostra como a profecia feita pelo próprio Jesus, a respeito do modo da Sua morte, estava se cumprindo. Se os judeus tivessem executado Jesus, a morte seria por apedrejamento, mas o próprio Jesus havia dito que seria levantado (João 3.14; 8.28; 12.32s, compare com Deuteronômio 21.23).
(7) No ato da crucificação, os soldados romanos não rasgaram as vestes de Jesus (19.23,24), e João cita o Salmo 22.18, indicando que isso era cumprimento das Escrituras. Este salmo havia sido escrito mil anos antes da morte de Jesus, e nele são descritos detalhes de uma cena de execução, dos quais muitos se cumpriram em Jesus. 
(8) Em 19.28, é dito que Jesus estava consciente de que tudo já tinha e continuava se cumprindo de acordo com a Escritura. Isto é, Jesus sabia que cada detalhe da Sua morte cumpria as Escrituras. Então Ele deu um passo para um último cumprimento: o da sua sede, que havia sido profetizada nos Salmos 22.15 e 69.21.  
       Para aliviar sua sede os soldados lhe molharam os lábios com soro de vinho. Isto não matou sua sede, mas molhou sua garganta e o habilitou a proclamar o cumprimento das Escrituras quanto à obra redentora. 
(9) E por último, em 19.36,37, João fala do cumprimento do Salmo 34.20 e Zacarias 12.10.
Jesus já havia dito que tudo que fora profetizado em relação a Ele seria cumprido (Lucas 18.31-33; 22.37, citando Is 53.12). E agora Ele confirma isso, com Sua palavra na cruz. Os apóstolos também testemunharam que os acontecimentos da crucificação cumpriam as Escrituras (Atos 13.29).
     A obra consumada significava que as profecias relativas à morte de Cristo foram cumpridas. A morte de Jesus não foi acidental. Mas o cumprimento perfeito do que Deus havia proclamado no Antigo Testamento. Os inimigos de Jesus inconscientemente cooperaram para que o plano de Deus se realizasse, e as Escrituras se cumprissem. Os planos de Deus nunca serão frustrados!
     Com o cumprimento das Escrituras, outros aspectos da obra de Cristo também se completaram. Neste caso, outros sentidos da expressão “está consumado” podem ser aplicados.
     O “está consumado” também foi uma palavra de alívio. Seu sofrimento e angústia terminaram. Mesmo sabendo das profecias quanto à sua morte, Jesus experimentou sofrimento real e antecipado. Ele mesmo afirma que se sentia comprimido, como se estivesse sendo apertado por vários lados, até que sua missão fosse completada (Lucas 12.50). Agora, a obra estava concluída, o sofrimento havia passado. Ele persistiu e resistiu até o final. O nosso sofrimento também terminará um dia. Portanto, olhando para Jesus, não desanimemos (Hebreus 12.3).
      Ao cumprir as Escrituras Jesus completou a obra que o Pai lhe confiara. A expressão usada por Jesus também era pronunciada quando alguém concluía um trabalho. Quando um pintor terminava um quadro ou um autor um livro. Ali na cruz Jesus conclui a maior de todas as obras. Completar a obra do Pai era o supremo propósito de Sua vida (João 4.34), Ele tinha consciência de que Sua missão era fazer a vontade de Deus. Cumprir as obras do Pai era Seu modo de dar testemunho (João 5.36). Completando a missão recebida Ele glorificava o Pai (João 17.4). O propósito da nossa vida é glorificar a Deus. Realizamos isso cumprindo a vontade Dele em nossas vidas, e permanecendo fiel até o fim à missão que Ele nos deu, mesmo que isso envolva sofrimento.
       Quando cumpriu as Escrituras Jesus também pagou nossa dívida. Este era outro uso da expressão “está consumado”. Foram encontrados em papiros, recibos de impostos que apresentam esta expressão significando “pago em sua totalidade”.  Tínhamos uma grande dívida com Deus, os nossos pecados. Não tínhamos condições de pagar. Mas a morte de Jesus na cruz pagou esta dívida em sua totalidade. (Colossenses 2.13,14).  
       Outro uso da expressão era quando o sacerdote examinava um animal para o sacrifício, e não encontrando nenhum defeito nele, dizia: está consumado! Isto é, tudo está perfeito. O animal pode ser ofertado como sacrifício. A morte de Cristo foi uma oferta perfeita pelo pecado, que nunca mais precisaria ser repetida. A obra foi consumada de uma vez, uma única morte, pagando pelos pecados de todos aqueles que Deus iria salvar (Hebreus 1.3; 9.11-14, 22-28).
     Ao dizer “Está consumado”, Jesus estava confirmando Seu amor pelos Seus discípulos. Pois Ele os amou até o fim (João 13.1). Isto significa tanto que amou até que Sua vida fosse entregue cumprindo as profecias, como que amou até que o alvo fosse alcançado: nossas vidas fossem salvas.
    Diante disso vamos crer que o sacrifício de Cristo não foi um acidente. Mas a obra eternamente planejada, e no tempo executada, para salvar o povo de Deus, e habilitar este povo para glorificar a Deus para sempre.
    Vamos crer também que o plano de Deus jamais será frustrado.  Quando as pessoas pensam estar trabalhando contra ele, estão cooperando para sua realização. 
      Creiamos ainda que o nosso sofrimento, por maior que seja, um dia acabará. Portanto não vamos desistir da luta. Vamos perseverar. 
     Vamos concluir a missão de Deus para as nossas vidas, lembrando que nosso propósito aqui é cumprir a vontade Dele. Só assim poderemos dizer: completei a carreira. 
      Vamos nos alegrar, pois nossos pecados estão totalmente pagos, quitados completamente. Não por nada que tenhamos feito. Mas, única e exclusivamente por causa do sacrifício de Jesus na cruz. Estamos perdoados de todos os pecados.
     Vamos louvar a Deus pelo grande amor de Jesus por nós. Ele nos tem amado de modo que o alvo preparado para nossa vida se realizou. Embora isso tenha incluído o Seu sofrimento.    Vamos amar os nossos irmãos assim também. 
     Regozijemo-nos, pois “Está consumado!”.