Aprender os pronomes de tratamento, normalmente ajuda-nos ao nos dirigir às pessoas. Mas há situações nas quais não sabemos se o tratamento deve ser formal ou não. Por exemplo: ficamos constrangidos de chamar uma mulher de “senhora” e ela reclamar que a estamos tratando como uma idosa. Por outro lado, não nos sentimos à vontade para chamá-la de “você”, pois ela poderia interpretar que estivéssemos tomando uma liberdade indevida.
Podemos enfrentar uma situação semelhante no tratamento com Deus. Por considerá-lo um Ser inigualável, supremo e grandioso, nós O tratamos de um modo respeitoso, mas com medo de nos aproximar com intimidade. Ou podemos achá-lo tão amável e próximo a nós, que nos dirigimos a Ele como se fosse nosso “pareceiro”, sem nenhum respeito, eliminado a distinção que existe entre Ele e nós.
Na teologia há dois termos que tentam manter em equilíbrio a distância e proximidade de Deus, a intimidade e o temor devido a Ele. São eles: transcendência e imanência. Tais termos descrevem a ação de Deus em relação à Sua criação. O primeiro expressa a ideia de que Deus é infinitamente superior a nós, soberano e exaltado, e o segundo que Ele está próximo de todos nós. Ele tanto é o Deus de longe, como o Deus de perto (Jr 23.23). O salmo 113 expressa estas duas verdades.
O salmo é emoldurado pela palavra “Aleluia”, que aparece no início e no fim e significa “Louvai ao SENHOR”, pois na língua na qual o salmo foi originalmente escrito ela é formada pelo verbo “louvar” e uma contração do nome pessoal de Deus (“Jeová” ou Javé”, que nas nossas versões da Bíblia normalmente é grafado com SENHOR, com todas as letras maiúsculas).
O salmista faz um convite ao louvor. Louvar é manifestar apreço, admiração diante das virtudes ou ações de alguém. É elogiar. No caso de Deus é reconhecer Seu Supremo valor e honra. Expressar sua importância contando quem Ele é e o que Ele tem feito. Isso acontece quando mencionamos Suas virtudes e feitos (Sl 78.4).
O louvor ocorre nas nossas orações, no que testemunhamos aos outros, nos cânticos, nas ações de graças e na música que tocamos e cantamos. Para ser um louvor tem que ser com alegria e de modo público. Pois admiração não expressada não se torna elogio.
A razão dada pelo salmista para o louvor é que Deus é Transcendente e Imanente. Deus é excelso, acima de toda criação, soberano sobre tudo, está situado no lugar mais alto, acima dos céus, inigualável. Isso enfatiza Sua santidade, isto é, que Ele está separado de tudo o mais, não precisando de nada nem de ninguém. Que Ele basta a Si mesmo. Está tão acima de tudo que precisa se abaixar para ver o que está no céu!
Mas esse mesmo Deus se interessa e se relaciona com Sua criação. Ele se abaixa até o pó para levantar o desvalido, aquele que é considerado sem valor, rejeitado e sem socorro de ninguém. Ele vai até o monturo, o lixão da vida, para buscar o necessitado. Ele é o Grande Deus, mas também é o Deus que se importa e acode o necessitado. É o Deus que por ser grande pode mudar as situações, trazendo honra aos desonrados e alegria aos tristes. Mesmo sendo um governador que poderia ser intocável, Ele bondosamente se inclina, verifica e age, invertendo situações e abençoando a terra.
A transcendência e a imanência, junto com o poder e a graça de Deus são os pilares da oração. Apenas um Deus transcendente e poderoso merece a nossa oração, sabe o que fazer com nossas petições e pode receber nossa gratidão e nosso louvor. Somente um Deus imanente e gracioso vai se interessar por nossos problemas. Como um pai, que se inclina para ouvir os problemas que angustiam seu pequenino filho, mesmo que, para esse pai, aqueles problemas sejam bobagens fáceis de serem resolvidas. Mas ele sabe demonstrar interesse real e amoroso.
O Salmo nos demonstra que a teologia pode ajudar na oração e fortalecer nossa confiança em Deus. Quanto mais conhecermos nosso Deus, mais iremos confiar Nele. Nada é tão grande como nosso Deus, e ninguém é pequeno demais para Ele não se importar. Ele não precisa de nós, mas nem por isso é indiferente a nós.
Podemos clamar a Ele com confiança.