terça-feira, 10 de outubro de 2017

INVEJA – O PECADO DO OLHO GRANDE

Ela já foi chamada de o câncer da alma. Sua definição de felicidade bem que poderia ser: aquela agradável sensação de prazer ao ver a desgraça do outro. Isso é a inveja.
Uma expressão usada originalmente nas Escrituras para representar a inveja era “olho mau”. Equivaleria à nossa expressão “olho-grande”, sugerindo um olhar de cobiça, hostilidade e ressentimento para com o bem-estar do outro (Sl 68.16; Mc 7.22). Parafraseando um pensador grego da antiguidade: O sucesso dos outros é motivo suficiente para o invejoso ficar zangado (Xenofonte). Tomás de Aquino definiu a inveja como o desgosto pelo bem alheio.
            Outro termo usado pelos escritores originais da Bíblia para indicar a inveja descreve um estado de espírito enérgico e intenso que instiga a ação. É um desejo ou emoção forte que anseia por algo. Aquele sentimento que se preocupa com algo ou alguém. Quando motivado e executado de forma apropriada ele é descrito como zelo, pois se esforça pelo bem-estar do outro. Mas, como o mal sempre é uma perversão do bem, a inveja e o ciúme são a perversão deste zelo, tornando-se um esforço que prejudica e destrói.
Qual seria a diferença entre a inveja e o ciúme? Enquanto o ciúme zela por manter o que é seu, a inveja zela por conseguir destruir o que é dos outros. O ciúme pode ser correto se cuida daquilo que é seu por direito e do modo adequado (Pv 6.34; 2 Co 11.2). Mas pode degenerar-se em vício, imaginando ameaças e reagindo de forma inadequada. Por isso é dito que o amor não arde em ciúmes (1 Co 13.4).
            Precisamos também diferenciar a inveja da imitação positiva, que é a emulação, a atitude que admira e deseja possuir algo de outro ou mesmo ser-lhe igual em algum sentido, sem lhe trazer nenhum prejuízo (2 Co 9.2; Gl 4.18). Nesse caso a pessoa pode até querer comparar-se com o outro, mas tem prazer com o bem daquele a quem imita. Ela deseja a mesma alegria para si. E como ela admira aquele modelo, isso a motiva a esforçar-se por conseguir a posse ou qualidade desejada. Podemos ilustrar esse fato com um músico que, ao deparar-se com outro que toca melhor do que ele, fica admirado e impressionado e se propõe aprender e treinar mais, para um dia tocar tão bem quanto o outro.
A inveja porta-se diferente. Faz a comparação e ao perceber que não é ou não tem aquilo que é do outro, sente-se inferiorizada e até injustiçada. Fica triste e ressentida e começa a desprezar ou rebaixar o outro, ou mesmo destruir aquele bem. Comparando: enquanto a emulação empurra a pessoa para a escada rolante que faz todos subirem, a inveja procura puxar o tapete de quem está acima.
A inveja apresenta-se como ressentimento, amargura ou rancor e, se o invejoso não consegue ter o que deseja, fica satisfeito em pelo menos privar o outro daquilo. Essa atitude pode ser expressa com a frase “Nem eu, nem ele”. Isto é, “já que eu não consigo ter, fico satisfeito que ele também não tenha”. 
O escritor Os Guiness, em seu livro “Os 7 pecados capitais”, apresenta algumas características da inveja. Ela é o vício da proximidade, isto é, inveja-se aquilo que se tem em comum com pessoas próximas: um orador não invejará o talento de um músico, mas o de outro orador; um administrador não invejará a posição de um médico, mas a de outro na mesma função; e assim por diante.
A inveja também é subjetiva, ela está nos olhos de quem vê, e nem tanto nas qualidades do que é invejado. Pode até ser que o invejado nem seja tão bom assim, mas a inveja faz com que o invejoso enxergue aquilo como o melhor bem possível, e conclui que sua infelicidade se deve ao fato de o outro possuir aquilo.
A tentação da inveja não diminui com a idade. Ela pode até intensificar-se. À medida que o tempo e as oportunidades passam, os outros acumulam conquistas, e o invejoso fica para trás, ela tende a invejar mais.
Outra característica da inveja é que seus praticantes nunca a apreciam e raramente a confessam. O prazer que ela traz é desesperador e nunca admirado, pois se compraz na destruição e privação. Outros pecados podem até trazer um prazer temporário e alguma admiração aos seus perpetradores, embora nenhum prazer ou admiração compense as consequências. Um enganador pode até lucrar alguma coisa com seu engano e ser admirado por sua esperteza. Um assaltante pode até levar algum bem com seu assalto e ter sua perícia e coragem admiradas. Mas a inveja? O que ela deixa de saldo? Quem conta como vantagem o fato de ser invejoso?
A inveja é insaciável, desgastante e torna o invejoso um destruidor de si mesmo. Ele nunca estará satisfeito. Após arruinar o prazer de um, ele se defrontará com o prazer de outro e sofrerá com ele.  Em Provérbios 14.30, lemos que um interior sadio produz um corpo com vida, mas a inveja faz apodrecer os ossos. O autor nos alerta que um coração que cultiva bons sentimentos desfrutará de uma vida saudável, mas aquele que permite a inveja dentro de si, será como uma pessoa apodrecida, desgastada, sem alegria e ânimo para viver. A inveja faz a pessoa adoecer.
A inveja também é destruidora. Em Provérbios 27.4, após afirmar que o furor é cruel e comparar a ira a uma inundação destruidora, o autor pergunta: mas quem pode enfrentar a inveja? Demonstrando que ela é mais cruel que o furor e mais destruidora que a ira. O mundo está cheio de desastres causados pela inveja.
Em Gênesis 26.12-16 temos um exemplo de como a inveja é destruidora. Deus havia abençoado muitíssimo a Isaque, de modo que ele ficou riquíssimo. Os filisteus, seus vizinhos, não aguentaram isso, e ficaram com inveja. E o que fizeram? Entupiram os poços de água. Ao fazer isso, não apenas prejudicavam a Isaque, mas também a si mesmos. Não satisfeitos pediram para Isaque se afastar deles. Nesse caso ficaram com os poços entupidos para eles. A inveja age irracionalmente.  
Outro problema com a inveja é que ela pode ser mascarada por desculpas aparentemente construtivas. Ao falar mal de uma pessoa que está sendo elogiada, o invejoso, muitas vezes, tenta mascarar sua inveja dizendo: só estou alertando vocês para a verdade sobre fulano. Em realidade, ele apenas não suporta o sucesso do outro. Outras vezes, pode tecer intrigas com calunias para destruir um relacionamento e alegar que está preocupada com o futuro de alguém das pessoas envolvidas. Pode criticar uma boa obra, afirmando que está fazendo isso para instruir a outros. E assim por diante.
Devemos tomar muito cuidado com nossas motivações quando criticamos ou falamos mal de alguém. Será que não é a inveja corroendo nossos corações?
Conta-se que um rei chamou dois de seus súditos, um ganancioso e um invejoso, e lhes disse que um deles poderia fazer-lhe um pedido e seria atendido. O outro não pediria nada, mas receberia o dobro do que o primeiro pedisse. Isto criou um impasse entre os dois servos, pois nenhum deles queria ser o primeiro a pedir. O ganancioso, porque desejava tudo. Sabia que, se pedisse primeiro, ficaria com a menor parte. O invejoso, porque não aguentaria ver o outro recebendo o dobro do que pedisse. Ele não encontraria nenhuma alegria no bem recebido por maior que fosse, pois sua concentração seria ver o outro recebendo o dobro, e isso o deixaria triste.  Depois de certo tempo no impasse, o ganancioso conseguiu convencer o invejoso a pedir primeiro, argumentando que se custassem mais, os dois poderiam perder. O invejoso decidiu pedir primeiro. Depois de muito pensar foi ao rei e disse: o meu pedido é que o senhor me deixe cego de um olho.
Ele perderia um olho, mas isso não o deixaria triste, já que o ganancioso, ficaria cego dos dois. Esse é o espírito da inveja. Que Deus nos livre dele!
Para enfrentar a inveja precisamos aprender a estimar e admirar o que os outros têm de bom, e manifestar gratidão a Deus, por estas bênçãos doadas a outros. Também devemos aprender o contentamento com o que Deus, soberanamente, nos tem dado. Se Ele decidiu dar mais a outros do que a nós, vamos louvar o Seu nome por isso, e pedir que Ele conceda sabedoria àquela pessoa para usufruir corretamente dos bens que Deus lhe tem dado. Isso nos livrará da inveja.




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A CURA PARA A ESCLEROCARDIA

Na língua grega, na qual foi escrito originalmente o Novo Testamento, há o termo “esclerocardia”, que significa dureza de coração. Várias vezes somos exortados a não endurecer o nosso coração: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração, como foi na provocação (Salmo 95.8; Hb 3.8,15; 4.7). Mas como podemos fazer isso?
O tratamento da “esclerocardia” começa com o aprendizado das Escrituras.  Quando foi questionado pelo partido religioso dos fariseus sobre a licitude do divórcio por qualquer motivo, Jesus deixou claro que a solução para os problemas da família está nas Escrituras (Mt 19.3-9). A pergunta deles tinha como objetivo testar Jesus. Pretendiam que Jesus cometesse um erro ou falasse algo que o desmoralizasse diante do povo. Talvez esperassem que Jesus entrasse em contradição com o que Moisés havia dito, ou que dissesse algo que contrariasse o caso de Herodes e Herodias, como João Batista havia feito e por isso fora condenado, pois se estava no território governado por Herodes (Mt 14.3-12). 
             A resposta de Jesus é “Não tendes lido” e cita Gênesis 1.27 e 2.24. Para Jesus, a Palavra escrita de Deus era a autoridade sobre os assuntos de casamento e família. Apesar de ter sido escrita há mais de 1400 anos, ela ainda permanecia válida. Não importava se os costumes haviam mudado e se a mentalidade das pessoas era outra. O que Deus havia feito e dito, e que fora registrado nas Escrituras, permanecia com autoridade. 
            Em Gênesis 1.26,27 lemos o registro do que Deus fez. A Bíblia é nossa fonte de informação sobre o que Deus fez no princípio. Ele é o Criador de tudo, inclusive da família e do casamento. Ele tem autoridade para dizer como o casamento e a família devem funcionar. O que tem valor é o que Ele fez, não o que os homens ou a sociedade pensam. Em Gênesis 2.24 temos as palavras que explicam a razão do casamento. Foram escritas por Moisés, mas Jesus afirmou que fora Deus quem dissera, mostrando que Deus estava dirigindo o pensamento de Moisés, quando este escrevia aquele relato bíblico. Portanto, o que está na Bíblia é Palavra de Deus. E as ordens e explicações de Deus para a família se fundamentam nas ações de Deus em prol da família. 
            Quando a Bíblia fala, nossa opinião cala. Quanto ao que a Bíblia afirmou, nós não temos o direito de achar mais nada. Resta-nos apenas crer e obedecer. O que está escrito na Palavra de Deus encerra a questão. Portanto, para evitar o endurecimento do nosso coração, temos que conhecer a Bíblia. Ler, estudar e ouvir com atenção. Buscar entendê-la e obedecê-la. Ela é nossa autoridade para resolver os problemas da família. 
            Mas devemos interpretar a Bíblia corretamente. Os oponentes de Jesus também usaram o que Moisés havia escrito para contradizer a resposta dada por Jesus. Mas a interpretação deles estava equivocada. Moisés não havia ordenado o divórcio, apenas permitido, e isso por causa da dureza de coração.  Nosso coração é enganoso e pode nos levar a uma interpretação errada das Escrituras. Corremos o risco de usar a Bíblia para assegurar nossos desejos e desculpar nossos erros. 
            Alguns usam os seguintes argumentos: “Sou infeliz nesse casamento, e Deus não quer a minha infelicidade, portanto vou me separar”; “O amor acabou, e Deus é um Deus de amor, portanto cada um deve buscar alguém a quem ama e por ele seja amado para conviver”; “Deus não quer que nossos filhos cresçam vendo a gente brigar”. E por aí vão as conclusões erradas sobre ao ensino bíblico referente ao casamento e à família. Estas pessoas estão usando algumas ideias certas para tirar conclusões erradas. Deus não quer a infelicidade de ninguém, mas a dissolução de um casamento nunca foi e nem será o caminho para a felicidade. Deus não quer um casamento sem amor, mas a solução ordenada por Ele não é a separação e sim que os cônjuges aprendam a se amar. Deus não quer que os filhos cresçam vendo as brigas dos pais, mas sim que aprendam com os pais a resolverem os conflitos e suas diferenças, recorrendo à Palavra de Deus e à oração. 
            Jesus reafirma que o propósito de Deus para o casamento permanece aquele do princípio. As ideias modernas, a evolução dos costumes e as mudanças na sociedade não alteram o que Deus fez e afirmou. Muitas coisas mudam na vida, algumas mudanças são boas, mas há coisas que nunca devem mudar, e o casamento é uma delas. Mesmo com a presença do pecado e da dureza do coração humano, o que Deus fez e disse continua valendo.  
Ele uniu homem e mulher, Ele os ajuntou, colocou sob o mesmo jugo. Jugo era uma peça de madeira ou de ferro que atrelava uma parelha de bois à carroça ou ao arado, para que pudessem trabalhar juntos, sem se afastarem um do outro. Em nossa língua também é chamado de canga. Podemos ilustrar as palavras de Jesus dizendo que, no casamento, Deus encangou um homem e uma mulher, para que sob as rédeas divinas, juntos puxem a carroça da família e o arado que faz a vida frutificar. Sem que um abandone o outro.  Isso é uma tarefa difícil, mas, quando obedientes a Deus, Ele nos dá a graça para continuarmos. Quando um dos dois, ou até os dois, endurecem o coração, ficam revoltados e querem se libertar desse jugo imposto por Deus, ocorre a separação.  
O aprendizado das Escrituras deve levar à obediência aos mandamentos de Deus. Começando com o arrependimento, isto é, o retorno para Deus e para sua Palavra, deixando de seguir os desejos do coração para confiar e seguir as ordens de Deus confiando e aceitando os seus ensinos (Nm 15.39; 2 Cr 30.8). Reconhecendo humildemente a disciplina de Deus (Lv 26.41).   


Além disso, o tratamento da “esclerocardia” requer oração constante, pedindo que Deus transforme o nosso coração (Lm 5.21) 
Nosso coração é enganoso e desesperadamente corrupto. Somos incapazes de conhecê-lo (Jr 17.9). Ele facilmente nos engana, invertendo os valores. Guiados por ele, podemos chamar o errado de certo e o certo de errado. Ficamos iludidos, acreditando que nossos desejos são corretos, quando eles, na verdade, podem estar envenenados e destruir nossa família.  Temos que pedir a Deus que sonde os nossos corações, mostre o que está errado e nos corrija. Como o salmista fez: Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno(Sl 139.23,24) 
Como preferimos os bens desta vida, precisamos orar:  Inclina-me o coração ao teus testemunhos não à cobiça(Sl 119.36) 
Nossa tendência é ter um coração disperso, atento às coisas deste mundo, e desviado de Deus. Tememos e amamos os valores terrenos. Ficamos encantados com as belezas passageiras. Precisamos de um coração concentrado em temer a Deus. Por isso o salmista orou: Ensina-me, SENHOR, o teu caminho, e andarei na tua verdade; dispõe-me o coração para só temer o teu nome (Sl 86.11)
A oração tanto deve ser feita em tempos de bonança, quando tudo está bem, como nos períodos de disciplina e sofrimento. Salomão suplicou a Deus pelo povo, quando tudo estava bem, para que Deus não os desamparasse, mas mantivesse o coração do povo inclinado para seguir os caminhos de Deus (1 Rs 8.57,58). E Deus prometeu ao seu povo que, quando os tempos difíceis de disciplina chegassem, eles deveriam buscar a Deus de todo coração (Dt 4.29). 
Pratique a oração. Ore por você, por seu cônjuge e por seus filhos. Ore a sós, diária e constantemente, e sempre que possível, ore com seu cônjuge e com seus filhos. 
Um terceiro remédio para a “esclerocardia” é a comunhão numa igreja local. A ordem divina é que pratiquemos a exortação mútua e diária para que ninguém seja endurecido pelo engano do pecado. Exortai-vos mutuamente durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado (Hb 3.13)
É no contexto da participação ativa numa igreja que podemos realizar esta exortação. 
Há casais que não se importam em manter um compromisso com uma igreja. Tratam a frequência e participação numa igreja local como um item opcional na vida. Esquecem que é no compromisso de participação de uma igreja que aprendemos e crescemos. Há tanta coisa para fazer na vida: trabalho, estudos, diversão, que a igreja, muitas vezes, passa a ser a opção apenas quando sobra tempo. São como a semente que caiu entre espinhos, na parábola do semeador: A que caiu entre espinhos são os que ouviram e, no decorrer dos dias, foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida; os seus frutos não chegam a amadurecer (Lc 8.14). Como não são constantemente exortados, a palavra é sufocada. Os cuidados rotineiros, a busca por crescimento financeiro e por lazer impedem que a Palavra cresça e frutifique. Quando os problemas aparecem, buscam a igreja para pedir socorro. Neste caso, muitas vezes o endurecimento chegou ao ponto que só a amputação resolve. 
Alguns pais não se envolvem nas atividades da igreja e nem se esforçam para que seus filhos se envolvam. Esquecem que o aprendizado acontece principalmente de forma relacional. Nossos filhos irão fazer amigos, influenciar e ser influenciados, crescer, namorar, e formar famílias, quer queiramos quer não. Mas nós podemos escolher os locais onde eles construirão esses relacionamentos. 
Estes são os meios de graça que Deus deixou para impedir que nosso coração endureça: aprendizado da Palavra, oração constante e participação e comunhão numa igreja local. Estes são os remédios que curam nossa “esclerocardia”. 

Se em seu lar a situação é boa, vigie e se mantenha firmado em Deus. Se as circunstâncias estão complicadas e difíceis, não perca a confiança. Não desobedeça às ordens de Deus. Clame, obedeça e espere. Busque o fortalecimento na companhia de outros irmãos.  Não permita que sua “esclerocardia” destrua sua família e sua vida.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

ESCLEROCARDIA - SINTOMAS E CAUSAS


Em nossa língua, a raiz “cardio” é usada em palavras que fazem referência ao coração.  Algumas vezes, indicam problemas e doenças, como cardiopatia e taquicardia. Uma delas indica a esclerose do coração, que é a cardiosclerose. Na língua grega, na qual foi escrito originalmente o Novo Testamento, há o termo “esclerocardia”.
Ela foi a palavra usada pelos evangelistas para expressar o principal motivo ensinado por Jesus como o fator que levava à separação nos casamentos e à dissolução das famílias (Mt 19.8; Mc 10.4, 5). Ela significa dureza de coração.
            O maior perigo enfrentado por nossas famílias não é a incompreensão por parte dos cônjuges, ou os maus hábitos de alguns membros, nem as drogas, nem a violência na sociedade, ou mesmo a falta de respeito às autoridades. O maior perigo está bem mais próximo do que você imagina! Ele está dentro de nós. É a nossa “esclerocardia”. Os outros problemas surgem por causa da dureza de coração.   
   
            Quais os sintomas da “esclerocardia”?
A desobediência às ordens de Deus é o principal deles.
Quando o Antigo Testamento foi traduzido para o grego, os tradutores usaram o termo “esclerocardia” para descrever um coração incircunciso, que precisava submeter-se a Deus (Dt 10.16; Jr 4.4).
Deus havia estabelecido a circuncisão como símbolo de sua aliança com Abraão e seus descendentes (Gn 17.10-13). Ser circuncidado deveria significar que a pessoa submetia-se à soberana vontade de Deus, aceitando as condições impostas por Ele para quem quisesse fazer parte de Seu povo.
Com o passar do tempo, os israelitas começaram a tratá-la apenas como um ritual externo capaz de garantir automaticamente as bênçãos de Deus. Os que não faziam parte da aliança com Deus eram chamados de incircuncisos, considerados impuros moral e espiritualmente (2 Sm 1.20; Is 52.1). Um incircunciso não estava em condições de aproximar-se de Deus. Era tratado como imundo para participar do culto e da vida com Deus. Mas a palavra também indicava órgãos do corpo que não funcionavam adequadamente. Moisés disse que era incircunciso de lábios, isto é, não sabia falar bem. Deus afirmou que seu povo tinha ouvidos incircuncisos, pois não podia ouvir (Ex 6.12; Jr 6.10).
            Coração incircunciso era aquele que não havia se submetido à vontade de Deus, e que teimava em desobedecê-lo. Equivalia a alguém de pescoço duro, que rejeitava curvar-se para obedecer. Semelhante a um animal que não aceitava que o dono lhe colocasse as rédeas. A Bíblia chama isso de dura cerviz, referindo-se à recusa em aceitar as ordens de Deus (Ex 33.3,5). Era um coração incapaz de cumprir sua função de amar a Deus com toda a intensidade do ser (Dt 30.6).  Mesmo que a pessoa fosse circuncidada externamente, se ela não se submetia a Deus, ela sofria de “esclerocardia”.
            A dureza se manifesta numa recusa em arrepender-se e voltar-se para Deus, numa resistência ao Espírito Santo (Ne 9.29; At 7.51; Rm 2.5).  O rei Zedequias agiu assim. Ficou tão obstinado, que não quis voltar para Deus e, com isso, causou a destruição de sua família e do seu reino (2 Cr 36.13; 2 Rs 25.7).
            Deus trata a dureza de coração como uma provocação. É uma rebelião que provoca a sua ira (Hb 3.8).
Quando alguém fecha seus ouvidos para o que Deus fala e recusa obedecer ao que Ele ordena, está manifestando os sinais de “esclerocardia”.  A consequência disso será a destruição de sua família. Pois a desobediência a Deus, a falta de amor a Ele, aceitando Suas ordens e mandamentos, é a maior causa de desavenças familiares.

Quais as causas da “esclerocardia”?
O engano do pecado é uma delas (Hb 3.13). O pecado promete o que não pode entregar. Ele se apresenta com uma aparência atraente, faz os olhos brilharem, demonstra-se prazeroso, parece agradável, fascina, alimenta nossa esperança de satisfação e realização, mas nunca cumpre o que prometeu. Traz apenas frustração e decepção. Quantas pessoas sucumbem a este engano! Mesmo quando tudo está bem no lar, elas são atraídas pelas palavras enganosas do pecado, esperam algo melhor, e tal como Eva, destroem o paraíso que o lar poderia ser (Gn 3.6).
Algumas vezes um dos cônjuges se sente insatisfeito, não consegue lidar com as expectativas frustradas dentro do casamento. Então encontra outra pessoa que parece satisfazer aqueles anseios. E ele se deixa levar por este novo relacionamento. Pode até se desculpar pela infidelidade mostrando as falhas de seu cônjuge. No início do novo romance, parece que seus problemas foram resolvidos. Mas logo provará as consequências amargas de sua traição, pois seu coração endurecido continua com ele. É apenas questão de tempo para os mesmos sintomas se apresentarem.   
Outra situação bem comum é a de cônjuges que não conseguem acertar a contento suas diferenças e começam a pensar na separação como a solução. Acreditam que o divórcio resolverá suas brigas, pois pensam que as implicâncias, incompreensões e maus hábitos do outro são a causa dos seus problemas. Com o tempo, o divórcio provará que os problemas apenas mudaram de endereço, pois a esclerocardia continua.   
            A incredulidade tanto pode ser causa como sintoma desta doença (Mc 16.14). Jesus reprova a dureza de coração dos discípulos porque não haviam crido no testemunho dado sobre a ressurreição. A incredulidade manifesta um coração endurecido, mas também causa este endurecimento, trazendo a desobediência. Pois, quem não confia não consegue obedecer. O apóstolo Paulo enfrentou essa mesma dureza. Quando pregou a Palavra, alguns de seus ouvintes além de se recusarem a crer, ainda falavam mal do evangelho (At 19.9).
Essa incredulidade se manifestou em Faraó, que, mesmo presenciando os grandes milagres de Deus, recusava obedecer (Ex 8.15). Uma descrição bem clara de incredulidade e dureza aparece em 2 Reis 17.13-18, onde são apresentadas as razões para Deus permitir a invasão de Israel e o consequente exílio. É dito que o povo recusou atender às ordens de Deus e teimosamente decidiu não confiar. 
            Os problemas nos casamentos são resultados de falta de confiança na Palavra de Deus. Não acreditamos o suficiente para obedecer e esperar.   Queremos consertar com nossos recursos, fazer do nosso jeito.  Somos imediatistas, querendo soluções rápidas e fáceis.
Quando teimamos em permanecer endurecidos, a possibilidade de cura desaparece, seremos quebrados repentinamente, como um membro que é amputado porque não tinha mais jeito.
O homem que muitas vezes repreendido endurece a cerviz
será quebrantado de repente sem que haja cura.
Provérbios 29.1