quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

A RESILIÊNCIA NECESSÁRIA PARA ENFRENTAR 2026



      Mais um ano se inicia, e nos perguntamos o que 2026 nos reserva. Gostaríamos de afirmar com certeza que teremos tempos bons, mas a incerteza é uma constante em nossas vidas. Cada um de nós enfrenta desafios e adversidades, como tempestades que nos testam, precisamos de resiliência.

         Mas o que é resiliência? A palavra vem do latim e significa “voltar ao estado anterior”, indicando elasticidade. [1]  Na física e na engenharia, descreve a capacidade de um material de retornar à sua forma original após ser submetido a impacto ou pressão.  Figurativamente, a resiliência se aplica ao comportamento humano, representando a capacidade de se recuperar e se adaptar às adversidades e mudanças da vida. 

    Uma pessoa resiliente é geralmente entendida como  alguém capaz de superar adversidades, adaptar-se a mudanças e se recuperar de situações difíceis.  Mais do que apenas suportar o estresse, essas pessoas aprendem e crescem com as experiências, mantendo o equilíbrio e a saúde mental. Elas são flexíveis, otimistas e autoconfiantes, usando o autoconhecimento para lidar com desafios de forma construtiva, extraindo aprendizados e encontrando soluções.[2]

        No entanto, essa definição, embora amplamente aceita em nossa cultura, não se alinha com as Escrituras. Expressa uma cosmovisão humanista e secular.  A perspectiva bíblica ensina que a resiliência não se baseia no autoconhecimento ou na autoconfiança, mas na “teoconfiança” – confiar em Deus e se apoiar no conhecimento que Ele revelou nas Escrituras. As Escrituras afirmam que a autoconfiança não é sinônimo de resiliência.

     O profeta Jeremias apresentou essa verdade em um texto bem conhecido, frequentemente citado, mas nem sempre bem interpretado: Jeremias 17.5-8. 


5Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do Senhor!6Porque será como o arbusto solitário no deserto e não verá quando vier o bem; antes, morará nos lugares secos do deserto, na terra salgada e inabitável.

7Bendito o homem que confia no Senhor e cuja esperança é o Senhor.8Porque ele é como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e, no ano de sequidão, não se perturba, nem deixa de dar fruto.[3]

 

            No livro de Jeremias, encontramos o relato de suas profecias, pronunciadas entre 627 e 574 a.C. Ele foi chamado para pregar para um povo que havia feito uma escolha trágica: abandonou a confiança em Deus para confiar em suas próprias obras, conforme relatado pelo próprio Deus: “abandonaram a fonte de águas vivas e cavaram cisternas rachadas” (Jr 2.13).

          Eram tempos de crise e ele foi chamado para proclamar o juízo de Deus sobre seu povo. Esse chamado lhe trouxe imenso estresse e tristeza constante (Jr 9.1; 20.7-9). Ele enfrentou incompreensões, ameaças, inimizades, perseguições e decepções. Em momentos de profundo abandono, solidão e desânimo, ele desabafou com Deus, questionando se Deus não seria como um ribeiro ilusório que frustra aqueles que o buscam para saciar sua sede (Jr 15.18). Apesar dessas dificuldades, ele foi encorajado a manter sua confiança em Deus (Jr 19-21), e ele o fez (Jr 16.19). Neste texto, ele declara que sua segurança transcende as condições e experiências externas, permanecendo inabalável diante de adversidades, rejeição, desprezo, perseguição e até mesmo a morte.[4]

           Esses versos estão posicionados logo após uma acusação contra o povo de Judá, que, como alguém que confia em seus próprios recursos, abandonou a Deus e, como consequência, enfrentaria a perda das bênçãos divinas (Jr 17.1-4). [5] Após uma fórmula de transição que apresenta a fonte da mensagem, “Assim diz o SENHOR”, o texto é estruturado em duas estrofes que comparam e contrastam dois tipos de pessoas. As estrofes não têm o mesmo número de linhas, pois Jeremias deliberadamente criou um poema distorcido, simbolizando a disparidade entre alguém que confia em outro ser humano e alguém que confia no SENHOR.[6]

               Os termos “maldito” ou “amaldiçoado” se referiam a pessoas que foram banidas da presença e favor divinos. Consequentemente, elas não encontravam realização na vida, mas sim uma existência vazia e repleta de dificuldades (Gn 3.14-19).  Elas não tinham sucesso nas tarefas que deviam desempenhar (Dt 28.15-19) e viviam com amargura (Nm 5.24).

          Neste texto, as pessoas malditas são descritas como aquelas que confiam em si mesmas, em sua própria humanidade, força, recursos e capacidades[7]. Elas acreditam que sua ajuda e socorro vêm de fontes visíveis, colocando toda a sua esperança no mundo material, em suas habilidades ou na opinião pública. Essas são as pessoas autoconfiantes, que a sociedade humanista aprova com aplausos.

        Confiar implica em se apoiar em algo e encontrar segurança nele, tornando-se dependente. Essa confiança traz uma sensação de bem-estar, sossego, descanso e despreocupação, pois a pessoa se sente segura.

           No entanto, confiar em si mesmo é afastar o coração do SENHOR. Quando alguém confia em si mesmo, se desvia de Deus, e seu coração é mantido distante d’Ele. O termo “coração” é usado figuradamente para representar o centro diretor da vida, abrangendo emoções, pensamentos e motivações. É aquele que orienta toda a vida e guia as decisões.   

             O texto nos traz uma imagem ilustra esse tipo de pessoa: um arbusto que indica uma árvore sem galhos ou com folhas minúsculas, lutando para sobreviver no deserto árido e sem água. Essa pessoa não consegue apreciar a bondade, mesmo quando ela se apresenta. Ao depositar sua confiança em sua própria condição humana, ela permanece cega para a felicidade e presa em um estado de aridez.[8] Por estar concentrada em seus próprios recursos, ela não consegue enxergar as manifestações da graça de Deus ao seu redor. Ela habita nos lugares áridos e secos, como uma terra salgada incapaz de sustentar a vida. 

            Em contraste, o bendito ou abençoado é aquele que cumpre sua missão (Gn 1.22,28) e encontra alegria e realização na vida (Sl 128). Sua confiança está firmemente em Deus, que serve como seu refúgio e amparo. Essa segurança traz consigo paz e tranquilidade reais (Sl 40.4; 118.8; Pv 14.26; 21.22; Is 32.18). Em vez de abandonar Deus, ele se entrega a Ele, virando as costas para o mundo e se lançando nos braços de Deus.

            Essa pessoa é comparada a uma árvore plantada junto às águas correntes, com raízes estendidas para uma fonte de vida constante. Mesmo quando o calor chegar, ela não teme. Notamos que não se trata de uma teologia da prosperidade material que promete a ausência de problemas.

            O texto enfatiza a vitalidade única de um indivíduo que confia no SENHOR. Mesmo quando o mundo ao seu redor se torna árido e tudo murcha, ele encontra recursos inesgotáveis de vitalidade. Sua confiança no SENHOR não depende de condições de vida favoráveis ou amplas. A passagem não sugere que a prosperidade seja uma recompensa pela fé. Em vez disso, ela descreve um homem que prospera como uma árvore alimentada por profundas e inesgotáveis águas subterrâneas, que nutrem sua vitalidade e fecundidade. Sua confiança no SENHOR lhe dá acesso a recursos espirituais inabaláveis. Ele resiste e prospera porque possui uma energia que o emancipa até mesmo do mais sombrio dos mundos externos, evitando a paralisia e o desespero.[9]

         As tribulações podem surgir, mas não assustarão alguém firmado no SENHOR. Mesmo durante a seca, ela mantém sua folhagem verde. Ela permanece imperturbável, não se deixando dominar pela ansiedade, preocupação ou aflição. Essa figura representa uma pessoa que suporta as adversidades da vida sem ansiedade, permanecendo estável e produtiva.[10]  Os tempos ruins não abalam sua confiança em Deus, e os tempos difíceis não afetam sua produtividade. Ela continua frutífera e abençoando os outros. Sua produtividade e capacidade de ser um meio de bênção para os outros são notáveis.[11]

        Assim como nenhuma árvore ou arbusto pode sobreviver sem água, não há, para o povo de Deus, substituto viável para a confiança genuína no SENHOR. Qualquer alternativa levará ao definhamento e à morte.[12] A felicidade não depende das circunstâncias ou situações; uma pessoa que confia em Deus mantém sua alegria mesmo nos momentos mais difíceis. Diante de crises, desafios e adversidades, devemos escolher entre confiar em nossos próprios recursos ou confiar em Deus. Devemos lembrar que o destino de vida ou morte é determinado pelo objeto da confiança de alguém. [13] 


[1] Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 

[2] Definição da pesquisa do Google, em 30 de dezembro de 2026, às 11 horas. 

[3] Sociedade Bíblica do Brasil, Almeida Revista e Atualizada, com números de Strong (Sociedade Bíblica do Brasil, 2003), Jr 17.5–8.

[4] William McKane, A critical and exegetical commentary on Jeremiah, International Critical Commentary (Edinburgh: T&T Clark International, 1986), 393.

[5] Peter C. Craigie, Jeremiah 1–25, vol. 26, Word Biblical Commentary (Dallas, TX: Word, Incorporated, 1991), 226.

[6] William Lee Holladay, Jeremiah 1: a commentary on the Book of the Prophet Jeremiah, chapters 1–25, org. Paul D. Hanson, Hermeneia—a Critical and Historical Commentary on the Bible (Philadelphia: Fortress Press, 1986), 490.

[7] Três termos são utilizados para isso. O primeiro, normalmente traduzido como “homem” designa o guerreiro, é o homem em seu apogeu e força[7] , o segundo, normalmente também traduzido como “homem” é um termo que indica a humanidade que teve sua origem na terra, sendo criatura de Deus.  E o terceiro, “carne” indica a fragilidade humana. 

[8] Esequías Soares, “Jeremias”, in Comentário Bíblico Latino-Americano, org. C. René Padilla et al., trad. Cleiton Oliveira et al., 1. ed. (São Paulo: Mundo Cristão, 2022), 950.

[9] William McKane,1986, 394.

[10] F. B. Huey, Jeremiah, Lamentations, vol. 16, The New American Commentary (Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1993), 173.

[11] John L. Mackay, Jeremias, trad. Vagner Barbosa, 1a edição, vol. 1, Comentários do Antigo Testamento (São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2018), 576.

[12] Walter Brueggemann, A Commentary on Jeremiah: Exile and Homecoming (Grand Rapids, MI; Cambridge, U.K.: William B. Eerdmans Publishing Company, 1998), 160.

[13] Walter Brueggemann,  1998, 159.

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito obrigado, Pastor Almir, por tão ricas e sábias palavras. De fato, o texto sobre a maldição da confiança no homem carece de interpretação sadia e seu entendimento tem sofrido por falta do contexto. Mais uma vez, muito obrigado! Que o ano de 2026 nos traga o SENHOR! Maranata! Shalom!

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