quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Necessidade: Provação ou Tentação?



Somos seres necessitados. Já nascemos com necessidades. Precisamos de ar, alimento, cuidados, etc. As necessidades nos acompanham por toda a vida. Sofremos quando nossas necessidades não são supridas, ficamos carentes. Passamos fome, sede, sono, dor, desgosto, tristeza, etc. Por isso lutamos muito para que nossas necessidades sejam atendidas: choramos, pedimos, estudamos, trabalhamos, construímos relacionamentos, aderimos a uma religião, etc. E quando todo este esforço ainda nos deixa carentes, ficamos frustrados e até revoltados.

A Bíblia demonstra que necessidades não supridas são provações, que, dependendo de nossas reações, podem se tornar tentações. Veja o exemplo em Êxodo 17.1-7. O povo de Israel havia sido liberto do Egito pela ação poderosa e maravilhosa de Deus. Vários milagres haviam sido operados. Obras sobrenaturais de libertação foram testemunhas pelos israelitas. No deserto já havia provado da boa providência divina em alimento e água (15.22-27; 16). Deus os estava orientando com a nuvem e coluna de fogo. A única preocupação do povo era seguir, colher o maná, e esperar em Deus. E assim eles seguem.

Num dos lugares que acamparam por orientação divina (literalmente "boca do Senhor" indicando que seguiam a Palavra do Senhor Ex. 17.1), faltou água! Que coisa! Mesmo obedecendo rigorosamente às ordens de Deus ainda podemos passar necessidades? Quando obedeço a Deus não tenho garantias de que Ele suprirá na hora que preciso de todas as coisas? Nem sempre nossa obediência é garantia de que nossas necessidades serão supridas no tempo e da forma que esperamos. Água é uma necessidade do ser humano, mas Deus tem o direito de supri-la quando e como quiser.

Muitas vezes ansiamos e buscamos a direção de Deus porque não queremos sofrer, ou porque queremos ter nossas necessidades e/ou desejos satisfeitos. Não queremos que as coisas “dêem errado”, e com "dar errado" estamos nos referindo ao nosso desprazer e não à glória de Deus ou ausência de pecado. Dar errado para nós não significa santidade, mas desgosto, insatisfação com alguma situação que não foi suficiente para suprir nossos anseios.

Uma tendência natural quando nossas necessidades não são atendidas é derramar nossa raiva contra quem está nos ajudando. O povo reclama de Moisés. Manifesta sua raiva e ira contra seu líder, cobra dele a necessidade que tem. Isto foi injusto. Injusto porque Moisés estava sendo o instrumento usado por Deus para dar liberdade àquele povo, até então ele só havia agido para o bem deles. Injusto porque não estava no poder de Moisés providenciar água, ele estava seguindo as ordens de Deus. Injusto porque Moisés estava na mesma situação, com sede. Injusto porque Moisés não era culpado por aquela situação.

Somos assim também, quando nossas necessidades não são supridas, reclamamos, despejamos nossa frustração e ira contra as pessoas mais próximas, contra aquelas que mais nos ajudam, e que não tem culpa da situação. São filhos que reclamam dos pais, cônjuges uns dos outros, liderados dos seus líderes, membros do pastores, pastores das ovelhas, etc.

Nossa reclamação manifesta nossa desconfiança de Deus. Moisés diz que o povo está tentando Deus, isto é colocando Deus à prova. O povo está duvidando da presença de Deus entre eles. Para o povo a presença de Deus só era crida se suas necessidades imediatas estivessem sendo satisfeitas. A reação pecaminosa diante de necessidades não supridas é uma manifestação de nossa infidelidade contra Deus. Estamos duvidando de Deus, de sua capacidade e amor para cuidar de nós. Tendemos a acreditar que Deus só está conosco se tudo estiver bem. Comportam-nos como se Deus tivesse a obrigação de suprir nossas necessidades, para que assim possamos acreditar Nele.

Nossa murmuração também nos leva à ingratidão. Fazemos poucos das bênçãos recebidas, e duvidamos do plano de Deus. O povo de Israel, em sua reclamação a Moisés, questiona os propósitos de Deus em tirá-los do Egito. Duvida do amor de Deus, e credita maldade ao ato de Deus livrá-los da escravidão. Assim quando sentimos que nossas necessidades não são supridas desprezamos os dons de Deus, questionamos seus propósitos, e amor. É o cônjuge que reclama do dia que casou (sendo que havia pedido isto em oração), pais que reclamam de ter filhos (quando haviam clamado a Deus por filhos), e assim por diante.

A frustração pode tomar proporções irracionais e catastróficas. Ela se manifesta na murmuração, e esta contamina. Vai de um a outro, e o sentimento de ira vai crescendo, a ponto de Moisés confessar que falta pouco para que o apedrejem. Não sabemos como o apedrejamento de Moisés produziria água e assim resolveria a situação. Mas é isto que a raiva faz. Ele nos cega, e nos leva a tomar decisões irracionais.

Quando nossa frustração se manifesta em murmuração compartilhada com outros, o risco aumenta exponencialmente. Somos capazes de assassinar. É assim que muitas injustiças são cometidas. Um contamina o outro com sua insatisfação, e logo o pastor é colocado para fora da igreja, o pai ou mãe tornam-se vilões, o chefe passa a ser odiado e olhando com desconfiança. Como o pecado manifesta-se de forma coletiva, quase que ninguém se sente culpado com a injustiça cometida. Mas deve ser lembrado que o pecado coletivo nasceu de frustração e murmuração individual.

Tudo isto é resultado da falta de fé. Quando seguimos a orientação de Deus por confiar que Ele cuidará de nós da maneira Dele, considerando que Ele tem propósitos que vão além de nossa satisfação imediata, mesmo não tendo as necessidades supridas nós não iremos pecar. Necessidades não supridas é momento de provação, oportunidade para demonstrarmos nossa fé no Deus que cuida de Seu povo, e tem todas as coisas sob Seu controle. É oportunidade de esperarmos em Deus para que Ele manifeste Seu poder, e assim seja glorificado.

Mas fazemos das necessidades não supridas uma tentação, isto é uma oportunidade para pecar. As necessidades não supridas têm sido usadas como desculpas para o pecado. O homem que adulterou porque sua esposa não lhe satisfazia as necessidades sexuais, o menino que roubou porque estava com fome, a mulher que mentiu porque precisa do emprego para se sustentar, a criança que malcriadamente chora porque os pais não podem lhe dar o que quer, etc. Mas isto é pecado. É ouvir a voz do tentador, antes da voz do Supridor. É duvidar do amor de Deus. É provar a Deus.

Ali em Refidim não é registrado nenhum ato de adoração, apenas que o lugar ficou conhecido como o local onde o povo duvidou da presença de Deus. Quantas vezes nosso suprimento deixa mais marcas de dúvidas do que fé e gratidão?! A carência pode ser uma porta para uma oportunidade de Deus manifestar Seu Amor e poder, ou uma armadilha, que manifesta nossa descrença e egoísmo, e assim cairemos no pecado.

Que nossas necessidades não nos levem ao pecado, mas à confiança.

2 comentários:

Francisco Fabiano Fontes Feitosa disse...

Concordo Pastor, com a sua colocação das nossas reações diante das necessidades.Que Deus tenha misericórdia e com sua iluminação nos ajude a mudar.

Cleanis Quinteros disse...

Muito bom Parabens...